| Resumo
A isquémia da mão associada
às fístulas e enxertos para hemodiálise
no membro superior constitui uma complicação
relativamente pouco frequente, mas potencialmente grave, podendo
mesmo levar à perda do membro.
No presente trabalho pretendemos efectuar
uma revisão dos aspectos relacionados com a fisiopatologia,
o diagnóstico e a prevenção desta situação.
São discutidas ainda as diferentes
alternativas terapêuticas, dando particular realce à
problemática da decisão terapêutica, sobretudo
no que diz respeito às indicações para
a correcção cirúrgica, assim como para
cada uma das técnicas descritas.
INTRODUÇÃO
A isquémia da mão e do antebraço
associada aos acessos vasculares para hemodiálise ocorre
de forma relativamente pouco frequente, mas constitui uma
complicação potencialmente grave, podendo mesmo
levar à perda do membro.
A primeira descrição do quadro
clínico de insuficiência arterial do membro superior
em doentes com fístulas artério-venosas para
hemodiálise foi publicada por Storey e colaboradores,
em 1969. No entanto, a sua prevalência real tem sido
difícil de estabelecer. Em 1975, Haimov referiu uma
incidência de isquémia distal em 1.6% das fístulas
distais, sendo 33.3% para as de localização
proximal e 14% dos enxertos.
Em 1980, Kinnaert verificou que 42% dos
doentes com fístulas latero-laterais e 16% dos doentes
com fístulas termino-laterais apresentavam queixas
de claudicação intermitente da mão, relacionada
com o exercício.
Em 1997, De Caprio publicou uma revisão
de 1020 enxertos artério- venosos do antebraço,
efectuados entre 1993 e 1996, tendo verificado que 18 doentes
apresentavam síndrome de roubo, num período
de seguimento de 7 meses. |
Mais recentemente,
em 1998, Morsy efectuou uma revisão de 352 doentes
que efectuaram 309 acessos artério-ve-nosos a nível
dos membros superiores nos últimos 5 anos e diagnosticou
síndrome de roubo em 13 dos 299 doentes com enxertos
protésicos (4.3%) e em 2 dos 110 com fístulas
do antebraço (1.8%).
Outros autores publicaram casos e séries
de síndrome de roubo, ocorridos em diferentes períodos
de tempo, mas não se referem à população
em risco.
O estudo de populações
com vários tipos de acessos e a utilização
de diferentes critérios para a isquémia podem
explicar a discrepância verificada em relação
à incidência desta situação. De
qualquer modo, todos os autores concordam que os casos de
isquémia da mão são pouco comuns nos
doentes com fístulas distais na ausência de patologia
predisponente como a diabetes Mellitus, aterosclerose e as
vasculites. A prevalência desta situação
aumenta nos casos de acessos proximais (fístulas umeral-cefálicas
ou enxertos artério-venosos) e nos casos de doentes
com as situações patológicas mencionadas
anteriormente.
FISIOPATOLOGIA
A construção de um acesso
vascular para hemodiálise pode condicionar isquémia
da mão devido a insuficiência arterial, hipertensão
venosa ou à combinação de ambas as situações.
A insuficiência arterial resulta
do desvio do fluxo sanguíneo preferencialmente pela
fístula, de menor resistência, em detrimento
do leito arterial distal, provocando subsequente hipoperfusão
e potencial isquémia.
- Assistente Hospitalar
de Cirurgia Vascular do Hospital Garcia de Orta.
- Assistente Hospitalar
de Nefrologia do Hospital de Santa Maria.
- Assistente Hospitalar
Graduado de Cirurgia Vascular do Hospital de Santa Maria.
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