ARTIGO DE REVISÃO

CONTROLE GLICEMICO COMO FATOR DE RISCO DE
DOENÇA CARDIOVASCULAR
GLICEMIC CONTROL AND CARDIOVASCUIAR DISEASE

Prof. Leão Zagury


RESUMO
O autor analisa cronologicamente o problema do controle glicêmico em relação ao aparecimento e progressão das complicações micro e macro vasculares do diabetes. Comenta as dúvidas iniciais de que houvesse relação direta entre hiperglicemia e aparecimento de complicações secundárias. Refere estudos em animais, analisa a persistência das dúvidas, os melhores esclarecimentos provenientes de trabalhos pioneiros como o de Pirart e, finalmente, dos grandes estudos prospectivos como o DCCT e, mais recentemente, o UKPDS, que esclareceram os problemas de forma definitiva em relação às complicações microvasculares. E, finalmente, comenta os resultados do UKPDS em relação às complicações macrovasculares, discutindo a relação entre hiperglicemia e o sistema cardiovascular. Comenta também os recentes trabalhos em que se valoriza a hiperglicemia pós-prandial e de jejum na gênese das doenças cardiovasculares.


UNITERMOS
Controle glicêmico; Diabetes; Hiperglicemia.


SUMMARY
The author makes an retrospective analyzes of the relationship between glicemic control and the progression of the micro and macrovascular disease on the diabetes. Remember the initial doubts and the progression of the knowledge from the animal works and Pirart's pioneer work and finally the prospective studies DCCT and UKPDS that make the microvascular problem definitively clear. It is commented the results of the UKPDS about the macrovascular disease, especially the relationship between the hiperglicemia and the cardiovascular system. It is aiso commented the recent works about the importance of the pos prandial hiperglicemia and the fast glicemia as the cause of the cardiovascular disease.


KEY WORDS
Glicemic control; Diabetes; Hiperglicemia.


Antes da descoberta da insulina, em 1920, os diabéticos morriam em coma diabético e desnutrição. Hoje, a grande maioria morre das complicações secundárias, cardiovasculares e renais. Há muitos anos, o objetivo do tratamento passou a ser evitar que essas complicações se instalassem e progredissem. Entretanto, não se tinha certeza se, com o controle rigoroso da glicemia, isso seria conseguido. Estudos em animais sugeriam que o bom controle glicêmico diminuía a incidência, a gravidade e a progressão dessas complicações.

Em 1977, o estudo do belga J. Pirart, publicado na França, foi contundente e representou um marco no esclarecimento do problema: acompanhou 4.398 pacientes por mais de 25 anos, e a análise dos dados demonstrou que a frequência e a gravidade das lesões secundárias microvasculares do diabetes se relacionavam com a duração do diabetes e com o controle glicêmico. O estudo foi contestado por ter utilizado a glicemia de jejum e glicosúrias para estabelecer o nível de controle e por não ter separado pacientes do Tipo l e 2, além de não ser randomizado.

O ponto final da discussão foi, sem dúvida alguma, o Diabetes Clinical Control Trial (DCCT), publicado em 1993, e que demonstrou definitivamente a relação entre controle do Diabetes Tipo l e complicações secundárias microvasculares. No que diz respeito ao controle glicêmico e incidência e progressão de complicações secundárias microvasculares no Diabetes Tipo 2, o problema só foi definitivamente esclarecido com a publicação do United Kingdown Prospective Diabetes Study (UKPDS), que também avaliou as complicações macrovasculares nesses pacientes.


* Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes. Prof. Associado do Curso de Pós-Graduação em Endocrinologia da PUC- Rio de Janeiro. Chefe do Serviço de Diabetes do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE).

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