ARTIGO DE REVISÃO

TROMBOEMBOLISMO VENOSO E TERAPIA DE REPOSIÇÃO HORMONAL
NA MENOPAUSA
VENOUS THROMBOEMBOLISM AND MENOPAUSE HORMONE REPLACEMENT THERAPY

Ricardo M. R. Meirelles

INTRODUÇÃO

O uso de estrogênios, tanto na terapia de reposição hormonal da menopausa (TRHM), como em contraceptivos orais (CO), figura em livros de Medicina Interna como uma das condições associadas a aumento de risco para a ocorrência de tromboembolismo venoso (TEV). 1 O estudo HERS despertou maior preocupação com respeito à associação de TEV e TRHM ao reportar incidência de eventos tromboembólicos cerca de três vezes maior na população tratada com estrogênios conjugados e acetato de medroxiprogesterona do que nos controles em uso de placebo.2 E importante conhecer a real dimensão desse risco e até que ponto ele pode interferir nas decisões terapêuticas relacionadas à estrogenioterapia, tendo em vista a frequência e a relevância da prescrição de CO e TRHM.

CONTRACEPTIVOS ORAIS

Existem muito mais trabalhos abordando a relação de TEV com o uso de CO do que com o uso de TRHM. Douketis et al,3 em revisão recente da literatura, abrangendo o período entre 1966 e 1996, identificaram 26 estudos que investigavam a associação entre TEV com uso de CO, oito que investigavam a associação com TRHM e um que incluía CO e TRHM. Dependendo da metodologia empregada, o risco relativo (RR) varia, tanto em relação aos contraceptivos orais como à terapia de reposição hormonal da menopausa.

Os menores valores de RR (intervalo de confiança a 95%) foram observados nos estudos controlados randomizados: 1,1 (0,4-2,9), para os CO, e 0,7 (0,3-1,6) para a TRHM. Os maiores RR foram registrados pelos trabalhos com metodologia de coorte retrospectiva, no caso dos CO, e caso-controle, para a TRHM: 4,8 (2,5-7,7) e 2,4 (1,7-3,5), respectivamente3 (Tabela l).

Alguns trabalhos 4,6 identificaram um risco relativo mais elevado, da ordem de 5,0 (intervalo de confiança a 95%: 2,5-7,5)3 com os CO de terceira geração. Em relação aos CO de segunda geração, o RR de TEV para os CO contendo gestodene ou desogestrel foi de 1,5 (intervalo de confiança a 95%: l,1-2,l).6 As razões para isso não são claras, uma vez que esses produtos têm menor quantidade de etinil-estradiol que os CO mais antigos, o que deveria diminuir o RR, pois há evidências de que este seja dependente da dose de estrogênio.7-9 Uma hipótese seria que o aumento do RR corra por conta dos progestágenos utilizados nos CO de terceira geração, que têm núcleo esteróide gonano, no que se distinguem dos progestágenos presentes nos CO mais antigos. Os trabalhos que observaram maior risco de TEV com CO de terceira geração, entretanto, foram questionados por Rekers et al, que neles identificaram possíveis fatores de tendenciosidade.10


  1. Professor Associado de Endocrinologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Diretor do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione.
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