O uso intra-hospitalar da OHB no Brasil deu-se em 1986, com a implantação do Serviço de Medicina Hiperbárica no Hospital das Clínicas da Unicamp, primeiro centro em hospital civil e universitário da América Latina. Em 1991/1992 ocorreu a instalação de câmara hiperbárica no Hospital das Clínicas da USP.6 Atualmente, vários Serviços realizam a OHB, com câmaras instaladas por todo o Brasil.

Mattels et al, em 1990, compararam vários estudos que utilizavam a HBO em úlceras refratárias ao tratamento convencional, encontrando uma porcentagem média de cura das úlceras refratárias entre 60% e 70%.7 Também em 1990, Oriani et al encontraram, em seu estudo, um declínio significativo na taxa de amputação por gangrena diabética em pacientes realizando HBO (5% contra 35%).8

A HBO deve, no entanto, ser sempre aliada ao conhecimento e tratamento do Diabetes Mellitus e de possíveis obstruções de grandes artérias dos membros inferiores que possam ter sido afetadas pela doença, pois a oferta de oxigênio tecidual é diretamente dependente do fluxo sanguíneo.9 Com isso, um índice de pressão perna/braço muito baixo, mesmo com tratamento com HBO, significa pouca chance de cura.

MÉTODO

O tratamento por HBO pode ser definido como uma administração inalatória e intermitente de oxigênio a 100%, a uma pressão maior que a do nível do mar. Ele pode ser realizado em câmaras que só comportam um paciente (denominadas do tipo monopaciente) ou nas que comportam vários pacientes (multipaciente).

As câmaras monopacientes são pressurizadas com oxigênio puro, enquanto nas multipaciente o paciente respira através de máscaras que fornecem oxigênio a 100%, porém, o ambiente no interior da câmara é pressurizado com ar comprimido. Em ambos os casos, a pressão de oxigênio é elevada aos níveis desejados. No caso específico das úlceras de perna, usamos pressão de 2,4 a 3 ATA em sessões diárias de 90 a 120 minutos.

O efeito imediato da HBO é a hiperoxigenação, que resulta do aumento do oxigênio dissolvido no plasma, o qual é diretamente proporcional à pressão parcial do oxigênio inalado.10 A difusão de oxigeno além dos capilares é independente da hemoglobina e é aumentada de duas a quatro vezes na pressão equivalente a 3 atm, o que pode ser de vital importância na preservação de tecido marginal viável e aumento da deposição de colágeno, angiogênese e morte bacteriana nos tecidos.11

Vasoconstricção, por diminuir o volume de sangue necessário para se atingir uma oxigenação adequada (mais oxigênio em menor quantidade de sangue), é outro efeito importante da HBO. A 2,5 ATA, o fluxo sanguíneo arterial é reduzido cerca de 20%, com melhora do retorno venoso, redução do edema e uma drenagem linfática facilitada.12

Quanto aos efeitos colaterais do tratamento, vários estudos têm demonstrado que a complicação mais comum da HBO em adultos é a falha na compensação pressórica nos dois lados da membrana timpânica, resultando em compressão de delicados vasos com dor e sangramento no interior do ouvido (barotrauma).13 A toxicidade do oxigênio no SNC, resultando em convulsões, é complicação muito pouco frequente. Trauma dos ouvidos e sinus devem ser evitados com compressão lenta da câmara, uso de descongestionantes e educação do paciente, sendo que, ocasionalmente, uma meringotomia pode ser necessária. Pneumotórax é uma complicação muito pouco frequente e pode ser evitada com uma triagem pré-tratamento para diagnóstico de "bolhas" pulmonares ou a presença de pneumotórax preexistente.11

RESULTADOS

As figuras l e 2 mostram a evolução favorável de um paciente submetido à hiperbaroterapia. O paciente apresentava uma vasculopatia diabética, com malperfurante plantar e osteomielite. A figura l apresenta o paciente no início do tratamento e a figura 2 apresenta o mesmo paciente após vinte horas de tratamento. O paciente evoluiu para cura total da lesão.

DISCUSSÃO

Na presença de oxigênio, a síntese de colágeno, a angiogênese e a epitelização são aceleradas. O oxigênio é necessário para a hidroxilação dos aminoácidos lisina e prolina, o que é um passo necessário para a síntese do colágeno.14 A angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) é estimulada pela hipóxia, sendo que macrófagos podem secretar fatores angiogênicos na presença de hipóxia.15 Porém, em áreas isquêmicas, a PO2 pode atingir níveis abaixo de 15 mmHg, o que compromete a viabilidade celular. Os fibroblastos, para sintetizar o colágeno, dividir e migrar eficientemente, necessitam de PO2 mínima de 30 mmHg a 40 mmHg. Portanto, o estímulo básico para a angiogênese é a hipóxia, mas são necessários níveis mínimos de oxigênio para que a síntese de colágeno seja eficiente e viável.

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