Nos pacientes com estenose abaixo de 50% não houve significância no índice de falência (AVCI ipsilateral) entre o grupo cirúrgico (14,9%) e o grupo clínico (18,7%, p=0,16). Portanto, pacientes com estenose menor que 50% não se beneficiam com a cirurgia.

Os pacientes arrolados pelo NASCET com estenose maior que 70% tiveram uma redução relativa do risco de eventos neurológicos de 65%.21 O índice de ACVI incapacitante (ie., que persistiu por noventa dias ou mais) ou de morte foi de 2,1%, em trinta dias. Este índice aumentou somente para 6,7% em oito anos. O benefício foi maior em homens, com AVC recente e em pacientes com sintomas hemisféricos. Os organizadores concluíram que a endarterectomia de carótida é altamente benéfica e durável para estes doentes (oito anos de seguimento).

O NASCET demonstrou um aumento dos benefícios com o aumento do grau de estenose (para estenoses de 70%-79%, 80%-89%, 90%-99%). Outros dados são sugeridos pelo estudo para grupos com estenose severa, como o prognóstico mais favorável da amaurose fugaz (AIT retiniano) em relação ao AIT hemisférico. Não há uma boa correlação entre o diagnóstico de ulceração da placa no pré-operatório e a observação cirúrgica.25 Não obstante, haveria uma evolução clínica desfavorável na presença de placa ulcerada, com prognóstico pior para os pacientes em tratamento clínico, mas não para os cirúrgicos, que teriam o ateroma ressecado. A presença de trombo mural estava associada com um risco de cerca de 25% de AVC tanto no grupo médico como no cirúrgico.
Outro dado importante observado na análise dos subgrupos do NASCET foi a identificação de doentes com estenose ipsilateral entre 70% e 99% e oclusão da carótida interna contralateral. Este subgrupo apresentou um risco deAVC de 69% em dois anos se tratados sem cirurgia.21

Os pacientes submetidos a cirurgia precocemente, após um AVC não incapacitante ipsilateral, tiveram índices de complicações comparáveis aos operados mais tardiamente. Portanto, postergar a cirurgia da carótida por trinta ou mais dias expõe estes pacientes ao risco desnecesssário de um AVC recorrente.24 Esta é uma informação muito importante, que modifica conceitos empíricos de conduta.

ECO-DOPPLER

O ecocolor-Doppler tem sido empregado em um número crescente de centros de referência internacionals como exame de imagem isolado pré-endarterectomia de carótida, especialmente nos pacientes sintomáticos. Relatos recentes sugerem que 80% a 90% dos pacientes poderiam ser submetidos a cirurgia sem angiografia,26, 27, 28 embora outros investigadores ainda recomendem estudos de imagem complementares.29

Nos pacientes com exames de ecoDoppler de boa qualidade, com doença aterosclerótica focal da bifurcação e apresentação clínica clara, a decisão terapêutica pode ser tomada sem o emprego adicional da arteriografia.30 Exames de imagem complementares estariam indicados nas seguintes situações: diagnóstico de oclusão carotídea duvidoso, possibilidade de doença não aterosclerótica, doença proximal à bifurcação carotídea, exame não-invasivo inconclusivo ou estenoses limítrofes e sintomas imprecisos apesar de exame de eco-Doppler de boa qualidade.

Na análise da morbi-mortalidade cirúrgica, os investigadores do AÇAS relataram uma incidência de 2,6% de complicações em 720 endarterectomias de carótida e surpreendentes 1,2% de AIT ou AVC pós-arteriografia, mostrando que, apesar de realizado em centros selecionados, este exame não é isento de complicações graves que poderão comprometer os resultados cirúrgicos.31

Os pacientes com incidência aumentada de estenose de carótida poderiam se beneficiar de exames de eco-Doppler de rotina. Alguns autores referem uma incidência de aproximadamente 25% de estenose de carótida maior que 50% em pacientes com claudicação intermitente e sem sintomas prévios de doença cerebrovascular.32 Estes autores referem que alguns subgrupos podem ter uma incidência ainda maior (~ 45%): homens com mais de 65 anos, índice pressórico tornozelo braço < 0,7 e sopro de cervical.

Alguns fatores que podem alterar o padrão hemodinâmico cérebro-vascular devem ser considerados na interpretação dos resultados do eco-Doppler. Assim, estenoses severas da artéria carótida interna (ACI) podem elevar as velocidades do fluxo na ACI contralateral e na artéria carótida externa homolateral, como consequência do hiperfluxo colateral. Tomadas "ao pé da letra", tais velocidades elevadas podem levar à hipervalorização do grau de estenose nessas últimas artérias. Em estudo recente, foi observado que até 1/5 dos pacientes com estenose estimadas de 60% a 99% na ACI contralateral podem ter estenoses menores do que 60%.33 Estes autores salientam que o eco-Doppler, quando utilizado como método isolado, deve ser repetido nos pacientes com estenose severa bilateral antes da indicação de cirurgia na ACI contralateral.

Os critérios utilizados para determinar o grau de uma estenose devem ser previamente validados para cada centro diagnóstico. Picos de velocidade sistólica entre 130-150 e 250-325 cm/s (limites inferiores e superiores respectivamente) e velocidades diastólicas finais < 100-110 cm/s são compatíveis com estenoses de 50% a 69%. Picos de velocidade sistólica >250-325 cm/s, velocidades diastólicas finais > 100-110 cm/s e índices entre as velocidades sistólicas na ACI e na artéria carótida comum >4 são compatíveis com estenoses de 70% a 99%.34-38

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