ESTENOSE DA ARTÉRIA CARÓTIDA

A isquemia cerebral é responsável por cerca de 80% dos casos de AVC, e a hemorragia, pêlos 20% restantes. A estenose da bifurcação da artéria carótida ocorre em metade dos AVC isquêmicos (AVCI),'4 e cerca de um terço (-10% do total) evolui sem sintomas prévios como o AIT.15

O cirurgião vascular tem focalizado sua atenção na doença ateromatosa da bifurcação e no papel da endarterecto-mia carotídea, um dos meios mais efetivos para prevenir o AVCI.16,17 Esta técnica foi introduzida nos anos 50 e tornou-se a cirurgia arterial mais comum nos Estados Unidos da América do Norte. No Brasil, o tratamento cirúrgico tem sido menos empregado.'" Este dado sugere que o acesso dos doentes aos recursos médicos é tardio e/ou que estes recursos estão direcionados aos pacientes em estágios avançados, já que a incidência da doença cerebrovascular no nosso meio é semelhante à dos países desenvolvidos conforme as observações do Ministério da Saúde. Infelizmente não há um projeto governamental efetivo para a prevenção da doença isquêmica cerebral.

A endarterectomia foi indicada inicialmente para pacientes sintomáticos com base em dados sugestivos mas não embasados em estudos prospectivos controlados. Incontáveis publicações relataram séries maiores ou menores de casos com bons a excelentes resultados e com baixos índices de complicações pós-operatórias. Entretanto, muitas eram confusas, com terminologia inconsistente e classificação não uniforme dos doentes. Em alguns relatos, os índices de mor-bi-mortalidade estavam acima do desejável.17,19

Nos anos 70 ocorreu um grande interesse pelas drogas antiagregantes plaquetárias no tratamento dos ataques isquêmicos transitórios (AIT) e na prevenção do AVCI, a ponto de muitos neurologistas adotarem a aspirina e outros agentes como única terapêutica.2" Na década de 80, seis estudos clínicos prospectivos controlados (trials) foram iniciados na Europa e EUA, comparando a endarterectomia de carótida com o tratamento clínico, sendo três destes estudos em pacientes sintomáticos e três em assintomáticos e, na década atual, um estudo em assintomáticos. Foi a partir desses ensaios clínicos multicêntricos que a endarterectomia carotídea passou a ter indicações mais precisas.17,19,21 Recentemente foram publicadas as recomendações para a endarterectomia de carótida pelo comité de isquemia cerebral da American Heart Association (AHA).22,23

Indicações da Endarterectomia (Com base nas recomendações da AHA).

Pacientes com Estenose Assintomática
* Para pacientes com risco cirúrgico < 3% e expectativa de vida maior que 5 anos:

  1. Indicação provada - endarterectomia ipsilateral para estenose > 60%, com ou sem placa ulcerada, com ou sem terapia antiplaquetária e independente do estado da carótida contralateral, variando de ausência de doença à oclusão.
  2. Indicação aceitável - endarterectomia unilateral de carótida simultânea à revascularização de miocárdio (para estenose de carótida > 60%, com ou sem placa ulcerada, com ou sem terapia antiplaquetária e independente do estado da carótida contralateral).
  3. Indicação incerta - endarterectomia unilateral de carótida para estenose > 50% , com úlcera e independente do estado da carótida contralateral.

* Para pacientes com risco cirúrgico de 3% a 5%.

  1. Indicação provada - nenhuma.

* Para pacientes com risco cirúrgico de 5% a 10%:

  1. Indicação provada - nenhuma
  2. Indicação aceitável (mas não provada) - nenhuma

Pacientes com Estenose Sintomática
* Parapacientes com eventos isquêmicos recentes não incapacitantes:

  1. Indicação provada - estenose de 70% a 99%.
  2. Indicação incerta - estenose de 30% a 69%.
  3. Não é benéfica - estenose de 0% a 29%.

Observações sobre os Ensaios Clínicos Controlados

Alguns meses após a publicação das recomendações da AHA acima citadas, foram relatados os resultados finais do NASCET 24 para pacientes sintomáticos e com estenose da carótida ipsilateral moderada - de 50% a 69% e < 50%. No grupo com estenose de 50% a 69%, 858 pacientes foram selecionados (430 para cirurgia e 428 para tratamento clínico). O índice de AVCI ipsilateral (índice de falência) em cinco anos foi de 15,7% nos pacientes cirúrgicos e de 22,2% nos pacientes clínicos (p=0,045). Para prevenir um AVCI ipsilateral em cinco anos, 15 pacientes devem ser tratados com a endarterectomia da carótida.

Portanto, haveria uma moderada redução no risco de AVCI com a endarterectomia de carótida nas estenoses de 50% a 69%. A decisão de operar deve obrigatoriamente levar em conta os fatores de risco associados com a evolução da doença e o treinamento da equipe. As observações sugerem que os benefícios a longo prazo da cirurgia (nas estenoses de 50% a 69%) são maiores nos homens, nos pacientes que tiveram AVC (em relação ao AIT), e nos que tiveram sintomas hemisféricos (em relação à isquemia retiniana). O risco peri-operatório de AVC ou morte é aumentado nos pacientes com diabetes, has, oclusão contralateral, doença no lado esquerdo ou lesão evidente na tomografia computadorizada ou ressonância magnética.

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