Vinte anos após a sua introdução na clínica, os métodos endovasculares, devido à sua elevada selectividade, tem um âmbito de utilização restrito a subgrupos de indivíduos bem definidos, portadores de isquemia crónica dos membros interiores.

No que concerne à sua posição relativamente aos dois grandes métodos de tratamento convencional, o tratamento médico e o tratamento cirúrgico, poder-se-a considerar que a intervenção endovascular actua uma franja de doentes que se intersecciona na fronteira de actuação entre estes dois métodos (Quadro IV). Não é o grande volume de indivíduos sofrendo de formas ligeiras ou precoces de doença ateros-clerótica e debaixo de tratamento medicamentoso que é objecto de intervenção endoluminal, tal como não são as formas extensas da doença com envolvimento multisegmentar e carácter oclusivo, que são aquelas que tem consensual-mente uma indicação cirúrgica.

Trata-se pois de uma estreita zona cinzenta que tenta sobreviver entre duas realidades estabelecidas e que movida por energias de natureza diversa, tenta a sua expansão. Permitindo-me especular um pouco, duas hipóteses se podem considerar à partida: a expansão no sentido dos, doentes objecto de tratamento médico; ou a expansão no sentido dos doentes cirúrgicos, assumindo-se como alternativa à cirurgia arterial directa. Qualquer destas duas opções suscita algumas considerações críticas.

QUADRO IV ANGIOPLASTIA/STENT DOS MMII Situação relativa - 20 anos depois

Tr. endovascular


A expansão no sentido do tratamento médico (Quadro V) irá actuar sobre as populações de indivíduos até então submetidas a terapêutica farmacológica, a que se adiciona a intervenção endovascular. Trata-se de um processo de duvidoso credito científico e custoso, em termos de economia de saúde e poucos são os países que tem capacidade econômico-financeira para o suportar. Seria difícil, quando não impossível, coligir argumentos que pudessem convencer as autoridades sanitárias sobre a relação custo-benefício dessa opção. E, por conseguinte, uma hipótese inviável, em termos gerais.

QUADRO VI ANGIOPLASTIA/STENT DOS MMII Tendências de desenvolvimento

Tr. endovascular

A expansão das técnicas endovasculares ao âmbito dos doentes cirúrgicos (Quadro VI), assumindo-se com alternativa à cirurgia arterial directa, tem sido fonte de forte polémica e acesa controvérsia. Entre os argumentos evocados contra a sua aceitação registra-se o facto de a sua eficácia não estar comprovada, de não existirem até à data estudos controlados (prospectivos, randomizados), comparando-a com a cirurgia25, de os resultados serem aparentemente inferiores aos da cirurgia, de existirem fortes dúvidas sobre o seu benefício económico e de finalmente, "last but not least", levantar uma viva conflitualidade de interesses entre múltiplos agentes envolvidos na intervenção endoluminal ("direito de propriedade").

QUADRO VI ANGIOPLASTIA/STENT DOS MMII Tendências de desenvolvimento II

Tr. endovascular

Dois estudos recentes mostram, efectivamente, que a diferença de custos financeiros, hospitalares, entre angio-plastia e bypass é insignificante ou nula22'26; se adicionarmos o custo de um ou vários stents, mais a perspectiva de reintervenção ou conversão cirúrgica a curto ou médio prazo, então a diferença pesa significativamente em desfavor da intervenção endoluminal. O conflito de interesses entre os diversos agentes envolvidos começa na indústria que investe somas avultadas na investigação, tem que suportar uma competição concorrencional forte e conquistar mercados e tem que, imperiosamente, obter lucros; passa pêlos pagadores dos sistemas de saúde (estatais ou privados) que desejam ardentemente pagar cada vez menos pêlos actos médicos; envolve os doentes que querem ser tratados rapidamente, com um mínimo de desconforto e risco; e, finalmente, termina nos profissionais, na tão monótona, quanto esgotada polémica de quem vai fazer a intervenção endoluminal, ou quem, por outras palavras, tem legitimidade para o fazer.

Pág.
21
22
23
24
25