CADERNO DE PORTUGAL

ANGIOPLASTIA/STENT NA ISQUEMIA CRÔNICA DOS MEMBROS INFERIORES

A PERSPECTIVA DE UM CIRURGIÃO VASCULAR

Américo Dinis da Gama
Clínica Universitária de Cirurgia Vascular
Hospital de Santa Maria - Lisboa, Portugal

A introdução das técnicas endovasculares na prática clínica angiológica foi secundada por uma grande onda de entusiasmo por parte dos médicos, doentes e autoridades sanitárias.

Com efeito, aqueles métodos apresentam facetas muito atractivas quando empregues no tratamento da doença isquémica dos membros inferiores: a sua execução é rápida, são efectuados sob anestesia local, o internamento hospitalar é curto e a recuperação rápida. Os custos económico-financeiros aparentam ser, por essa razão, menores quando comparados com o tratamento cirúrgico. Para além disso, dispensam a anestesia geral bem como a intervenção cirúrgica, com todo o desconforto, sofrimento e riscos que lhes são inerentes.

Vinte anos após a introdução da angioplastia por balão por Gruntzig', os seus resultados e a sua eficácia ainda são questionáveis, mesmo após a criação de complementos técnicos como é o caso dos stents, razão pela qual se torna pertinente debater este tema, neste caso através da óptica de um cirurgião vascular, que não tem qualquer experiência de intervenção endovascular.

Uma análise pormenorizada de 22 trabalhos publicados na literatura internacional recente, reportando séries de doentes portadores de isquemia crónica dos membros inferiores e submetidos a angioplastia e/ou stent, serve de base a esta reflexão (Quadro l). As séries foram separadas de acordo com a localização anatómica da lesão intervencionada (ilíacas, femoral superficial e poplítea proximal, poplítea distal e vasos crurais) e os resultados foram apreciados na perspectiva do sucesso inicial e dos índices de permeabilidade registrados do 1° ao 5° ano após a intervenção.

(a) Spence2, 1981;Gallino3, 1984;Johnston4-5, 1987, 1993; Murphy6, 1995; Martin7, 1995; Ballard8, 1996; Sullivan9,1997.
(b) Hewes10, 1986; Zoilikofer11, 1991; Saproval12, 1992; Hunink13, 1993; White14, 1995; Martin15, 1995; Staniey16, 1996; Gray17, 1997.
(c) Schwanen18, 1998; Bakal, Veith19, 1990; Buli20, 1992; Brown21, 1993; Treiman22, 1995.

Uma primeira impressão que se colhe na observação deste quadro é a discrepância de resultados, ou seja a enorme variabilidade nos números que os diversos trabalhos reportam em cada uma das áreas anatómicas intervencionadas. O segundo aspecto evidente é que a seguir a uma taxa elevada de sucesso inicial, ocorre, com o decorrer do tempo, uma significativa deterioração dos índices de permeabilidade, que é maior quanto menor é o calibre da artéria intervencionada.

Finalmente fica-se com uma primeira impressão que os resultados, na sua globalidade, são inferiores àqueles que decorrem da cirurgia arterial reconstrutiva dos nossos dias.

Uma análise mais pormenorizada das publicações mencionadas permite concluir que a discrepância de resultados se deve fundamentalmente a duas ordens de razões: metodologias diversas na seleção dos doentes e ausência de critérios uniformes de avaliação de resultados, sobretudo no que se refere ao conceito de "sucesso".

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