LIÇÕES DE ANGIOLOGIA E CIRURGIA VASCULAR

VASCULITES - ASPECTOS TERAPÊUTICOS CLÍNICOS NA INFLAMAÇÃO VASCULAR

Dr. Paulo Roberto Mattos da Silveira1

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Ao se preparar para a abordagem terapêutica de uma vasculite deve o médico, em primeiro lugar, verificar se o processo está em fase aguda. Para isso, é necessário ter à sua disposição resultados de exames laboratoriais, como hemograma, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa e a fração alfa l glicoproteína ácida.

A seguir, é conveninente avaliar se existe comprometimento de órgãos nobres consequente à inflamação vascular, entre os quais o rim e o fígado, pois além de ser necessário cuidar dos distúrbios funcionals decorrentes desse comprometimento - e não ficar apenas restrito ao que existe nas extremidades - durante o tratamento clínico poderão ser usados drogas e procedimentos analgésicos que, na dependência do grau de lesão renal ou hepática, terão que ser prescritos com moderação ou até mesmo ter o seu uso contra-indicado. Nesse ponto, desde um simples exame de EAS até a tomografia computadorizada podem ser úteis para a avaliação do distúrbio funcional causado em um órgão pela vasculite.

Por fim, o diagnóstico etiológico é mais do que necessário quando se deseja realizar a abordagem terapêutica da inflamação vascular, pois não é possível estabelecer uma conduta padronizada para a mesma, considerando que existem variantes que incluem causa desencadeante (primária ou secundária), forma de evolução, extensão das manifestações, etc. Nesta fase diagnostica, a parceria do angiologista com o reumatologista é muito importante, uma vez que a fronteira da competência entre os dois especialistas às vezes torna-se imprecisa. Quando a vasculite é secundária a uma provável doença do colágeno, a identificação laboratorial de auto-anticorpos com certo grau de especificidade (anti-Ro, anti-Sm, anti-RA, etc.) permite um diagnóstico mais próximo da causa da inflamação vascular (lúpus, esclerodermia, artrite reumatóide, etc.),

procedimento com o qual o reumatologista, pela prática rotineira, está mais familiarizado. No entanto, pode o angiologista ou o cirurgião vascular, numa fase inicial de pesquisa, até ousar identificar laboratorialmente uma causa reumatológica da vasculite mediante a determinação do fator antinuclear (FAN), cuja positividade é encontrada na maioria das doenças do colágeno, ou do fator reumatóide, cuja positividade conduz ao diagnóstico da artrite reumatóide. Daí para a frente, é adequado o concurso do reumatologista, da mesma forma que o inverso é verdadeiro quando se trata da arterite de Takayasu ou da tromboangeíte obliterante ou, ainda, da arterite temporal.
Identificada a fase em que a inflamação vascular se encontra, a extensão do seu comprometimento e a sua causa, pode-se, então, esquematizar o seu tratamento clínico.

PONTOS BÁSICOS PARA O TRATAMENTO

Alguns pontos são importantes para se ter na lembrança quando se aborda o tratamento das vasculites. O primeiro é o de que vasculite pode ser uma doença isolada (por exemplo, a arterite de Takayasu) ou, então, uma das manifestações de uma enfermidade sistêmica (por exemplo, doenças do tecido conjuntivo, como o lúpus, a artrite reumatóide, a esclerodermia, as quais ocasionalmente podem cursar com uma vasculite cutânea ou até mesmo com comprometimento inflamatório de troncos arteriais importantes).


  1. Professor convidado do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ. Chefe do Departamento de Angiologia do CENTERVASC do Hospital da Beneficência Portuguesa. Titular da SBCV-RJ. Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
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