ARTIGO DE ATUALIZAÇÃO

ATEROSCLEROSE: ATEROGÊNESE E FATORES DE RISCO (FINAL)

Dr. Fernando L. V. Duque1
Santa Casa da Misericórdia - Hospital Central - Rio de Janeiro

CORREÇÃO DOS FATORES DE RISCO

Conforme a resposta às intervenções terapêuticas, os fatores de risco têm sido classificados, de uma forma um tanto esquemática, em quatro categorias (American College of Cardiology):

I - Fatores de risco nos quais as intervenções correti-vas reduziram a incidência de coronariopatias: uso do tabaco - o colesterol LDL - dieta rica em gorduras e colesterol - hipertensão arterial - hipertrofia ventricular esquerda - fatores trombogênicos.

II - Fatores de risco nos quais as intervenções parecem (calcadas em interpretações patofisiológicas e evidências epidemiológicas e clínicas) reduzir a incidência de coronariopatias: diabetes - sedentarismo - HDL - Triglicerídeos; LDL denso e pequeno - menopausa.

III - Fatores de risco nitidamente associados com o maior risco de coronariopatias e que, se modificados, poderão baixar a sua incidência: fatores psicossociais - lipoproteí-nas (a) - homocisteína - estresse oxidativo - ingestão de álcool.

IV - Fatores de risco associados com o aumento de risco de coronariopatias, mas não podem ser modificados ou cuja modificação quase certamente não alterará a incidência de coronariopatias: sexo - idade - estado socioeconômi-co - história familiar de AE.

Em termos gerais, ainda faltam evidências conclusivas, em estudos em grandes populações, de que o combate a todos os fatores de risco acarrete redução na mortalidade total (Huliey, 1992). Os estudos mais amplos feitos até agora mostram um certo benefício no combate aos fatores de risco, o que coonesta e serve de base para o tratamento clínico destes fatores. O benefício é maior nos pacientes que já apresentam alguma forma de aterosclerose, especialmente coronariana (Goldman).

Denomina-se "profilaxia (ou prevenção) primária" o combate aos eventuais fatores de risco em pessoas ainda

sem manifestações ateroscleróticas visando-se impedir ou postergar a instalação da AE. A "prevenção secundária" é aquela feita em pacientes com lesões ateroscleróticas já instaladas visando-se a melhoria da lesão, redução da sua progressão e redução das complicações.

Embora muitos fatores de risco tenham atividade ate-rogênica autónoma, a associação de um ou mais fatores aumente enormemente o efeito nefasto sobre o aparelho cardiovascular. No Pooling Project, por exemplo, vemos que numa população de 30 a 59 anos de idade, acompanhada por dez anos, o primeiro evento coronariano surgiu em 2,3% dos indivíduos sem fatores de risco, 5,4% dos só fumantes, em 5,4% dos só hipertensos e em 5,4% dos dislipídicos. Mas, nos indivíduos fumantes, um outro fator de risco aumentou a incidência de cardiopatia para 10,3% e, nas pessoas com três fatores de risco, a incidência foi de 18,9%. O risco real em cada caso é maior que a soma dos riscos medidos isoladamente. O que sugere que eles se potencializam criando mais aterosclerose ou aumentando a gravidade das lesões.

Em trabalhos experimentais há claras evidências do desaparecimento de estrias gordurosas da íntima de animais hipercolesterolêmicos colocados sob regime normocoleste-rolêmico por certo período. Há fortes sugestões de que, no homem, estas lesões, e mesmo parte das placas fibrosas, regridem com dieta hipolipídica. Estes conhecimentos abrem um amplo horizonte na terapêutica profilática da aterosclerose, o que é ainda mais auspicioso pelo fato de o tratamento curativo das oclusões aterotrombóticas ser trabalhoso, dispendioso e geralmente insuficiente.

Embora inúmeros aspectos da aterogênese e da evolução da aterosclerose ainda estejam envoltos em mistério, o reconhecimento e correção dos fatores de risco das doenças cardiovasculares já começaram a dar frutos, que, certamente, se multiplicarão em futuro próximo.


  1. Professor de Angiologia da Faculdade de Medicina da FTESM e PUC (RJ).
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