Pelo motivo anteriormente exposto, os pacientes submetidos a TIPS devem ser avaliados trimestralmente durante o primeiro ano, com a finalidade de detectarmos algum tipo de alteração hemodinâmica no seu funcionamento. Esta avaliação consiste em um estudo ecocolor-Doppler do sistema venoso portal, com medida do fluxo através do TIPS. Fluxos superiores a 200cm/seg são indicativos de estenose, estando então indicado um estudo portográfico, por cateterismo venoso retrógrado, com medida das pressões portal e de cava inferior. Nos pacientes acompanhados corretamente, verificamos uma taxa de oclusão muito baixa, já que qualquer alteração que ocorra no "shunt" poderá ser prontamente detectada, sendo passível de um pronto tratamento, evitando com isto a oclusão do TIPS.

COMPLICAÇÕES TÉCNICAS RELACIONADAS COM O TIPS

A tentativa de canulização da veia jugular interna pode associar-se a punção acidental das várias estruturas da região cervical, como a artéria carótida, o nervo laríngeo recorrente, a traquéia e o ápice do tórax. As complicações relacionadas com o local de punção como os hematomas locais e o pneumotórax são bastante infreqüentes, ocorrendo em menos de 2% dos pacientes.

A punção transepática do fígado, na tentativa de canulizar a veia porta, se associa frequentemente à perfuração da cápsula hepática, pelo fato da agulha de punção ultrapassá-la.26 A punção capsular hepática não é considerada um erro técnico,3 ocorrendo comumente em 33%-39% dos procedimentos, no entanto esta poderá levar a um hemoperitônio severo ou até mesmo fatal.26 Felizmente a sua incidência é infreqüente, ocorrendo em menos de 2% dos casos.

O hemoperitônio massivo pode ocorrer após a canulização da veia porta extra-hepática. Em vários estudos recentes, a bifurcação da veia porta ocorre fora do fígado em 48% dos casos,37 motivo pelo qual o local ideal para a punção do sistema porta e entrada do TIPS é o ramo direito da veia porta a pelo menos 2cm distalmente da sua bifurcação.37

A dilatação do parênquima hepático, necessária para a confecção do TIPS, poderá levar a uma trombose aguda do mesmo, devido à grande exposição de tecido cruento.26,28 Rossie et al28 defendeu a anticoagulação por 24hs após a realização do TIPS; no entanto esta conduta pode ser questionada em pacientes com doença hepática avançada, plaquetopenia e coagulopatias.

Outras complicações que ocorrem de forma infreqüente são a punção do sistema biliar, do rim direito, da artéria hepática e do intestino. A punção da vesícula ou da árvore biliar poderá levar a hemobilia, a qual normalmente cede espontaneamente.

A punção do rim direito poderá causar hematúria. Estas complicações aparentemente são limitadas e frequentemente assintomáticas.

ENCEFALOPATIA PORTOSISTÊMICA E TIPS

A encefalopatia portosistêmica é uma síndrome clínica reversível, que pode ser observada principalmente nos pacientes com cirrose, e menos frequentemente em outros tipos de hipertensão porta. Dentre os vários tipos de cirrose temos a alcoólica, a pós-hepatite, a cirrose biliar primária, a hemocromatose e a doença de Wilson. Como doenças não cirróticas que levam à hipertensão porta, temos a esquisto-somose, a síndrome de Budd-Chiari, a trombose da veia porta e a presença de "shunts" portosistêmicos espontâneos, cirúrgicos ou percutâneos (TIPS).

Ao longo dos anos, foram identificadas uma série de condições que aumentam a susceptibilidade do paciente com hipertensão porta e encefalopatia portosistêmica, a qual é provocada por uma série de substâncias absorvidas pelo intestino e que normalmente deveriam de ser depuradas durante a passagem do sangue pelo fígado. Estas substâncias se disseminam pelo organismo através da circulação venosa colateral ou através do "shunt" portosistêmico, levando a uma hiperamonemia característica que induz a encefalopatia. No entanto, outras substâncias como as mercaptopuri-nas ou os ácidos graxos de cadeia curta podem também, sozinhos ou em combinação com a amónia, induzir à encefalopatia portosistêmica.

A realização de uma anastomose portosistêmica causa uma diminuição significativa da tolerância à amónia, sendo que grandes "shunts" induzem mais frequentemente a encefalopatia do que os "shunts" calibrados. Estes dados são dire-tamente aplicáveis ao TIPS, já que este se comporta clinicamente como um "shunt" portosistêmico calibrado. Existe a evidência clínica de que os pacientes com TIPS que desenvolvem encefalopatia possuem um diâmetro médio dos "stents" significativamente maior (±12mm) do que nos pacientes assintomáticos (±9mm).38 Está descrita a indução de encefalopatia após a inserção em paralelo de um segundo TIPS em pacientes assintomáticos apenas com um "stent".39

A encefalopatia portosistêmica induzida pelo TIPS é menos severa que a produzida nos pacientes submetidos a uma derivação portosistêmica cirúrgica. Existem algumas explicações para que esta encefalopatia seja mais suave. A primeira é que o diâmetro do "shunt" após a realização do TIPS normalmente varia entre 8 e lOmm, raramente necessitando de 12mm e nunca excedendo este diâmetro; a segunda é que apesar de reduzir significativamente a pressão porta, por tratar-se de um "shunt" portosistêmico calibrado, ainda é capaz de manter uma pressão portal residual suficiente para manter algum fluxo portal para o fígado, permitindo a absorção parcial das substancias tóxicas.48 Este fato está muito bem demonstrado, não só clinicamente, como também em animais de experimentação.40

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