| As amputações
dos membros inferiores do diabético constituem outro
capítulo importante da prática cirúrgica,
devido às consequências e problemática
que suscita. Regra geral, três variáveis devem
ser tomadas em consideração face à decisão
de proceder a uma amputação de um membro e são
elas o nível de amputação, o grau de
limitação ou incapacidade que ocasiona e as
possibilidades de cicatriza-ção do coto de amputação.
As amputações dos dedos
ou a transmetatársica são compatíveis
com uma autonomia funcional próxima do normal, mas
já a amputação de Symes (tibio-társica)
ocasiona uma significativa incapacidade.
A presença de uma artéria
poplítea permeável constitui um requisito importante,
mas não absoluto, para se obter uma boa cicatrização
de um coto de amputação da perna -a qual, uma
vez cicatrizada, permite uma rápida recuperação
e uma de ambulação fácil e natural.
Pelo contrário, a amputação
do membro acima do joelho registra elevados índices
de cicatrização do coto, mesmo na presença
de uma artéria femoral ocluída, mas é
altamente incapacitante e são poucos os indivíduos
que conseguem conquistar uma recuperação e autonomia
funcional satisfatórias.
ABORDAGEM ACTUAL - NOVOS MÉTODOS,
NOVOS CONCEITOS
A abordagem clínica, diagnostica
e terapêutica da diabetes e das suas complicações
específicas beneficiou do impacto do desenvolvimento
tecnológico que é característico do nosso
tempo.
Novos métodos e técnicas,
bem como novos conceitos e até o ressurgir de métodos
considerados clássicos, mas aperfeiçoados e
com novas perspectivas, têm sido introduzidos no manejo
das complicações do pé diabético,
nas áreas específicas do diagnóstico,
da terapêutica médica e da terapêutica
cirúrgica (Quadro III).
a) Diagnóstico
Em consequência da frequente calcificação
das artérias periféricas, a determinação
das pressões segmentares a esse nível torna-se
difícil ou impossível de obter, o que limita
a utilização da avaliação não
invasiva ultrasonográfica. Todavia, as artérias
colaterais digitais são muito menos atingidas pela
calcificação, o que permite determinar com segurança
a pressão digital, utilizando a fotopletismografia,
com "cuffs" pneumáticos adequados aos dedos
dos pés. Obtém-se, desta forma, valores fiáveis
na apreciação da circulação do
pé, bem como uma informação sobre o potencial
de cicatrização de ulcerações
ou amputações locais.27
Os estudos de velocimetria com laser-Doppler
bem como a determinação da tensão de
oxigénio por via transcutânea são outras
técnicas que têm igualmente sido utilizadas com
idêntico propósito.28 |

Métodos adioactivos, que empregam
perfusões de isótopos como o Tecnécio-99,29
ou o Xenon-133,30 têm
sido utilizados para a avaliação da microcirculação
cutânea, porém a sua aplicação
à clínica tem sido limitada devido à
inexistência de recursos na maior parte dos centros
hospitalares.
A arteriografia melhorou consideravelmente
a sua capacidade descriminativa com a introdução
das técnicas de subtracção digital, permitindo
uma melhor visualização dos vasos do pé
e a ressonância magnética nuclear configura-se
como a técnica mais promissora para o futuro. Com efeito,
para além da visualização da árvore
vascular, sem necessidade de recorrer à injecção
de meios de contraste, permite definir com rigor insuperável
o estado de viabilidade das partes moles, e do tecido ósseo,
bem como a presença de infecção na profundidade.31-33
b) Terapêutica médica
O ressurgimento do oxigénio hiperbárico
como método especificamente dedicado às complicações
infecciosas e isquémicas do pé diabético,
constitui a nota mais saliente da nova abordagem da terapêutica
conservadora daquelas situações.
A terapêutica pelo oxigénio
hiperbárico tem por objectivo elevar, por difusão,
o teor de oxigénio ao nível das lesões
e tecidos circundantes. Este facto, permite que os neutrófilos
eliminem muitas bactérias, através de mecanismos
oxidativos e que os germes anaeróbios sejam destruídos,
de forma directa. Por outro lado, os fibroblastos incrementam
a sua capacidade de reduplicação e produção
de fibras de colagénio e as células endoteliais
readquirem a capacidade de gerar novos capilares (angiogénese),
criando as condições essenciais para a regeneração
tissular.34
A eficácia terapêutica
pelo oxigénio hiperbárico requer uma administração
prolongada, repartida por sessões diárias de
cerca de uma hora, efectuadas em câmaras pressurizadas
com ar a 2.4 atmosferas. O tratamento prolonga-se, regra geral,
por 2 a 4 semanas e o seu efeito pode ser apreciado pela melhoria
das lesões, pelo aparecimento de tecido de granulação
ou objectivamente através da determinação
local da pressão transcutânea de oxigénio.35 |