CADERNO DE PORTUGAL

CIRURGIA VASCULAR
Pé diabético: perspectivas actuais de diagnóstico e tratamento

Américo Dinis da Gama
Prof. Catedrático de Cirurgia Vascular. Clínica Universitária de Cirurgia Vascular
Hospital de Santa Maria - Faculdade de Medicina de Lisboa

INTRODUÇÃO

A diabetes é uma doença crónica caracterizada por um metabolismo anómalo dos hidrates de carbono, do qual resultam elevados níveis de glicemia no sangue, acompanhada por importantes complicações neurológicas e vasculares, a médio e longo prazo. Não é uma entidade nosológica uniforme, mas um conjunto de tipos que diferem na etiologia e apresentação clínica.

A forma de diabetes reconhecida há mais tempo é a diabetes Mellitus insulino-dependente (IDDM), outrora designada por diabetes juvenil, que aparece descrita no Papiro de Ebers, aproximadamente 1500 anos A.C. A descoberta da insulina por Banting e Best em 1922 veio a proporcionar um tratamento quase "miraculoso" deste tipo de diabetes, visto ter transformado uma doença fatal numa enfermidade que embora seja tratável, está ainda longe de ser considerada curável.

Os esforços e investimentos dedicados à diabetes insulino-dependente desviaram a atenção dos médicos e investigadores de uma forma mais insidiosa, mas igualmente perigosa e extremamente comum, que ameaça na actualidade assumir a forma de uma autêntica pandemia e que recebe a designação de diabetes não insulino-dependente (NIDDM). Embora exiba as características de uma doença hereditária, difere da diabetes insulino-dependente pelo facto de se manifestar em idades mais avançadas (acima dos 45 anos), é muitas vezes insulino-dependente, o que se traduz em maiores necessidades de insulina, ou surge num contexto de uma diminuição da capacidade de segregar insulina suficiente para a manutenção de um metabolismo normal da glucose.1

O significado e a importância individual e social da diabetes advém das importantes complicações que ocasiona, de carácter degenerativo, inciando-se 5 a 10 anos após o início da doença e que podem afectar o olho (retinopatia) causando cegueira; o rim, resultando em insuficiência renal: uma aceleração da aterosclerose dos vasos de grande e médio calibre (doença macrovascular), com riscos acrescidos de infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral; e, finalmente, uma neuropatia periférica, associada a uma arteriosclerose dos vasos de pequeno diâmetro, que predispõe para problemas isquémicos e infecciosos das extremidades que são causa de ulcerações, gangrena e amputações.

Com efeito, este é um campo muito próprio e muito activo da Angiologia e Cirurgia Vascular contemporâneas.

Dados de informação provenientes de fontes diversas referem que 10 a 15% dos diabéticos sofrem uma amputação durante a sua vida e 40% sofrem uma segunda amputação no decurso dos 5 anos que se seguem à primeira; 60 a 95% das amputações dos membros inferiores nos diabéticos são precedidas de uma lesão crónica e mais de 50%;
das amputações não traumáticas do adulto são efectaudas em diabéticos.2-6

As repercussões humanas e sócio-económicas, directas e indirectas, destes factos, são enormes e difíceis de contabilizar, projectando as complicações dos pés diabéticos para o plano de um problema de saúde pública de grande envergadura.

PATOLOGIA DO PÉ DIABÉTICO

a) Arteriopatia
O território aorto-ilíaco é geralmente poupado no indivíduo diabético e a doença oclusiva manifesta-se mais intensamente ao nível da femoral superficial-poplítea e vasos tibiais, sendo a artéria peroneal a menos frequentemente atingida.7

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