INTRODUÇÃO

A úlcera de estase venosa acomete cerca de 0,5% a 1,0% da população em diversos países (Inglaterra, Estados Unidos),1 e provavelmente no Brasil os dados numéricos são semelhantes. Há uma verdadeira legião de pacientes que sofrem cronicamente com este problema, justificando-se sempre uma reciclagem geral dos conhecimentos clínicos e terapêuticos.

A colonização das feridas pode ser facilmente diferenciada da infecção com a utilização de culturas quantitativas de tecido (concentrações maiores do que 100.000 colónias/ grama de tecido são consideradas como processo infeccioso2,3,4), mas em nosso meio não dispomos atualmente desta metodologia para uso rotineiro. Neste estudo analisamos a flora bacteriana de úlceras de estase venosa e procuramos relacioná-la ao quadro clínico do doente, procurando evidenciar algumas diferenças na flora bacteriana entre pacientes sem e com suspeita clínica de úlcera com infecção.

MÉTODO E CASUÍSTICA

Foram analisados 35 pacientes atendidos consecutivamente na Disciplina de Cirurgia Vascular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo no período de janeiro de 1993 ajunho de 1993, e que preenchiam os seguintes critérios de inclusão:

A - Úlcera de estase venosa em membro inferior há mais de trinta dias
B - Índice Doppler tornozelo/braquial maior do que 0,8
C - Glicemia de jejum normal
D - Ausência de antibioticoterapia local ou sistêmica há pelo menos 48 horas
E - Realização de curativo local fechado.

A - Bacteriologia

Após a abertura do curativo foi colhida amostra de material da lesão por raspagem com "culturete" (Culture Swab - DIFCO/UK), seguido da imersão do mesmo em meio Stuart modificado. As amostras foram encaminhadas imediatamente para o laboratório, sendo semeadas em três meios: Ágar sangue, Agar MacConkey e Agar chocolate para identificação bacteriana e realização de antibiograma.

B - Avaliação Clínica

As úlceras foram avaliadas inicialmente e apresentavam vários aspectos diferentes: l) com tecido de granulação bom sem secreção, 2) com tecido de granulação bom com secreção serosa, 3) com tecido de granulação com fíbrina sem secreção, 4) com presença de secreção purulenta, 5) com fundo necrótico.

As queixas dolorosas na região da úlcera foram variáveis e separadas em quatro graus de intensidade: l) dor ausente, 2) dor fraca, 3) dor média e 4) dor forte.

Para efeito de análise dos dados, os pacientes foram divididos em dois grupos: l) com comprometimento leve (quadro clínico simples): aqueles que apresentavam dor ausente ou de intensidade fraca e lesão com tecido de granulação bom e/ou com fibrina mas sem secreção ou, no máximo, com secreção serosa. 2) com comprometimento grave (quadro clínico complicado): aqueles que apresentavam dor de média ou forte intensidade, ou lesão necrótica ou com secreção purulenta. Todos os doentes puderam ser classificados em um destes dois grupos.

RESULTADOS

Dos 35 pacientes, 12 foram classificados no grupo l e 23 do grupo 2. Os dois grupos apresentaram praticamente a mesma média etária, tempo de evolução da úlcera e distribuição entre os sexos. O tempo de evolução das úlceras foi maior do que a média citada em literatura, encontrando-se em 65 meses. A maior parte dos doentes apresentou lesão há menos de trinta meses, sendo que aqueles com evolução de mais de 240 meses tornaram o valor médio maior. Utilizamos a área da lesão em centímetros quadrados para melhor análise do tamanho das mesmas. As lesões complicadas, incluídas no grupo 2, apresentaram tamanho médio de 89 cm2, enquanto no grupo l este valor foi de 21 cm2. A distribuição dos pacientes quanto ao sexo, idade média, tempo de lesão e tamanho da lesão (em centímetros quadrados) se encontra na tabela l.

Tabela 1

Distribuição dos pacientes quanto ao sexo, idade, tempo de lesão e tamanho da lesão (em cm2)


No total foram 32 amostras com crescimento bacteriano e três estéreis. Em 16 casos ocorreu o isolamento de um espécime bacteriano; em dez, de dois; em quatro, de três e, em dois, de quatro. A distribuição nos grupos se encontra na tabela 2.

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