ARTIGO DE REVISÃO

CIRURGIA RESTAURADORA DA INTEGRIDADE VASCULAR:
FRAGMENTO HISTÓRICO

João Batista Thomaz(1), Ciro D. Castro Herdy(2), Yanna Cristhina Moreira Thomaz(3)

Trabalho do Serviço de Cirurgia Cardiovascular do Hospital Universitário Antonio Pedro,
Departamento de Cirurgia Geral e Especializada, Universidade Federal Fluminense.

As medidas que visam restaurar a continuidade vascular tiveram inicio com a necessidade de se corrigirem quadros patológicos (ex. aneurismas) ou mesmo traumas que tivessem comprometido a permeabilidade circulatória. Desde então, a exclusão aneurismática com subsequente reparo da continuidade vascular veio a constituir o cerne das pesquisas cardiovasculares, e todo avanço alcançado neste campo, nos últimos cem anos, teve seu inicio com esta dificuldade. Deste modo, a estória do tratamento cirúrgico dos aneurismas apresenta elo indissociável com a estória dos métodos de restauração vascular.

O tratamento dos aneurismas arteriais tem sido praticado desde os tempos mais remotos. No século IV, Antylly, cirurgião romano, foi o primeiro a realizar uma intervenção sobre um aneurisma, tendo praticado a ligadura próxima! e distal da artéria, seguida da abertura do saco aneurismático e tamponamento da sua cavidade. No século VI. Philadrius, na Macedônia. executou pela primeira vez uma aneurismectomia com finalidade curativa. Nesta mesma época. Aetius preconizava a ligadura e secção da artéria próxima! ao aneurisma, seguida da abertura da sua cavidade e da ligadura intrassacular do segmento distal da artéria.

Em período mais recente, Guillemeau. em l 594. preconizava a ligadura proximal da artéria junto ao aneurisma, abertura da sua bolsa, remoção dos coágulos e tamponamento da sua cavidade, deixando a ferida cicatrizar-se por segunda intenção.

Em 22 de julho de 1785. Desault. em Paris. e, em 2 de dezembro do mesmo ano. Hunter. em Londres, libaram a artéria fcmoral. distante da lesão aneurismática, a fim de evitar outras lesões vasculares na região adjacente à tumoração. Graças ao seu caráter histórico, todas as ligaduras arteriais distantes do aneurisma, numa porção proximal, têm a denominação genérica de "operação de Desault-Hunter" ou. para os anglosaxônicos. simplesmente "operação de Hunter". A ligadura arterial distal ao aneurisma foi executada pela primeira vez por Brasdor. em 1970. e popularizada mais tarde por Astiey Cooper. em 1871.

Em 1810. Dubois iniciou o tratamento dos aneurismas através de uma compressão gradual dos mesmos, procurando. deste modo. evitar uma oclusão total da circulação de maneira aguda, o que levava, nesta circunstancia, em grande escala, à formação de isquemia irreversível nas porções distais ao tumor vascular.

Em 1864. Moore preconizou a realização do método denominado "filipuntura", o qual consistia na introdução de uma quantidade de fios de prata no interior da bolsa aneurismática com o objetivo de provocar a formação de coágulos no seu interior. Em 1879, Corradi apresentou uma modificação do método precedente, o qual nomeou de "filigalvanopuntura", que era a passagem de uma corrente galvânica através do fio metálico introduzido na cavidade aneurismática, ligando a extremidade deste fio ao polo positivo de uma bateria e colocando o pólo negativo sobre o aneurisma.

Em 30 de março de 1888, Rodolfo Maltas operou um aneurisma traumático de braço, que havia subsistido ao tratamento pela ligadura dupla, isto é, a ligadura da porção proximal e distal da artéria, realizando pela primeira vez a "endoaneurismorratia". que consistiu na sutura intrassacular da porção proximal e distal da artéria.

Com o advento da antissepsia aliada ás aquisições anestésicas, o cirurgião vascular foi tomando consciência da importância de se realizarem intervenções que viessem a restituir a integridade do leito circulatório, evitando, desta maneira, as sequelas indesejáveis que decorriam da interrupção vascular abrupta. No final do século passado. já começava a lomar corpo o conceito de se manier a integridade. em oposição ao conceito de remoção.

Em 1895, Zoege e, posteriormente. Murphy relataram suas experiências concernentes à extirpação de uma tumoração aneurismática decorrente de uma fistula arteiovenosa. tendo os mesmos restaurado satisfatoriamente a corrente circulatória. Nesta época, as pesquisas clinicas e experimentais já começavam a ter como objelivo estabelecer condutas de ordem técnica, englobando a execução de anastomose s vasculares, os tipos de suturas mais convemenles, as texturas dos fios utilizados nas anastomose s. as espécies de agulhas etc.

As contribuições da Escola Cirúrgica de Lyon, na França. encabeçada por Jaboulay e, posteriormente, por Morel e mais tarde. por Alexis Carrel. foram de valor expressivo e inestimável para o avanço da cirurgia vascular nesta lase inicial. A transferência de Carrel, de Lyon para os Estados Unidos (Chicago), somado a sua parceria com Gutrie, dera


  1. Professor Assistente
  2. Professor Tilular
  3. Acadêmia de medicina
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