ARTIGO DE REVISÃO
ANATOMIA E FISIOLOGIA CARDIOVASCULAR - RESENHA HISTÓRICA

Confiar-se a alguém é Natureza; acolher aquilo que se
nos confiou, tal como foi transmitido, é cultura.
Goethe

João Batista Thomaz(1), Ciro D. Castro Herdy(2), Yanna Crísthina Moreira Thomaz(3)

Trabalho do Serviço de Cirurgia Cardiovascular do Hospital Universitário
Antônio Pedro, Departamento de Cirurgia Geral e Especializada, Universidade Federal Fluminense.

Os fatos e ideias que compõem a história do sistema cardiovascular têm uma aplicação diretamente ligada ao passado da raça humana, à própria história do homem. Esta história poderia ser chamada de "atualidade passada"; entretanto, sua tradução é sempre presente, já que descreve em cada uma das suas linhas o real progresso do espírito cientifico humano. A sua regra áurea tem sido expressa no conceito de que o passado oferece o único substrato para se poder explicar o presente.

Procurou-se difundir que só a história contemporânea tinha real importância no contexto científico do período presente, mas, na verdade, toda história tem importância porque ela é eternamente contemporânea.

A história da ciência é um eterno reservatório da pesquisa e do engenho humano. E o desenvolvimento sempre dinâmico da nossa cultura e do nosso labor. Sendo a natureza o teatro da vida humana, são os conhecimentos históricos que engendram os cenários diante dos quais os homens de ciência representam o seu papel. Se não tivermos tempo suficiente para analisar e tentar compreender o passado, por certo não teremos o discernimento necessário para atuar positivamente na construção do futuro.

Todo estudioso da ciência é por definição um crédulo. Mas o que é um homem de ciência se não um crédulo na sua máxima expressão? E normal para o pesquisador da ciência crer nos testemunhos, sobretudo quando eles provêm do passado: é normal crer no testamento científico de homens honestos e respeitáveis, de homens que inspiraram no seu tempo e ainda continuam inspirando confiança. A grande lição da história da ciência é sem dúvida a sua possibilidade de declarar que tudo é possível ser alcançado; é a curiosidade sem fronteiras, a acuidade de visão e do espírito de procurar enxergar além do horizonte comum; é o espírito de aventura que vem sempre enriquecer prodigiosamente o conhecimento dos fatos e alimentar a curiosidade pelos descobrimentos destes próprios fatos.

A História é um repositório de lições. Needham explicita este fato desta maneira: "Os erros dos nossos predecessores nos lembram que podemos também errar; que a sua sabedoria nos livra de presumir que a sabedoria nasceu conosco, e que pelo estudo dos processos do seu pensamento podemos esperar uma melhor compreensão e, por ela, uma melhor organização do nosso pensamento."(12)

A origem da preocupação do homem pelas afecções cardiovasculares e mesmo pela sua anatomia remonta ao período conhecido como hipocrático. No diálogo de Hermes Trismegisto com Asclépio, datado de aproximadamente 3.000 a.c., já se faz supor que o mesmo versava sobre a circulação. "... todo móvel (sangue) não é movido em qualquer coisa (corpo) e por qualquer coisa (vaso)? - seguramente. E não é necessário que aquilo no que o móvel se move lhe seja maior? E necessário. O motor (coração) ao que parece é mais forte que o móvel."(1)

Na China, em torno do ano de 2.600 a.C., Huang Ti descreve a "coagulação dentro do pulso" fazendo crer tratar-se da primeira citação de uma patologia cardiovascular(4).

Incontestavelmente, os primeiros conhecimentos inerentes à circulação, ainda que de maneira fragmentada, provêm das escolas médicas gregas. O grande acontecimento deste período foi o surto da medicina, partindo de um princípio eminentemente racional. Mesmo no século V, a medicina na Grécia ainda se achava coesamente ligada à religião. Toda modalidade de medidas de cunho terapêutico era confeccionada pelos sacerdotes de Asclépio. Nos templos-hospitais havia uma combinação de medicina espirita com rituais que davam asas à imaginação e ao psique do paciente; o hipnotismo e, talvez, a anestesia eram utilizados nestas oportunidades. A medicina racional fazia concorrência à eclesiástica. Embora os dois grupos atribuíssem a sua própria origem a Asclépio, os asclepíades profanos rejeitavam o concurso religioso, não alardeavam curas miraculosas e, gradualmente, colocaram a medicina em bases racionals.

A medicina oriunda da Grécia fez o médico reconhecer, pela primeira vez na história da ciência, a fundamental diferença entre uma verificação empírica e uma demonstração lógica e a considerar mais importante, com relação à ciência-arte, a explicação racional do que uma pura comprovação prática. Se a ciência é mais do que uma acumulação de fatos, no dizer de Tavares de Souza, não é simplesmente conhecimento positivo, mas conhecimento positivo sistematizado; não é simplesmente análise sem orientação ou empirismo fortuito, mas uma síntese; não é simplesmente um registro passivo, mas uma atividade construtiva, então não há dúvida de que a Grécia foi o seu berço(14).


  1. Professor Assistente
  2. Professor Titular
  3. Acadêmica de Medicina
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