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Os fatos e ideias que compõem a história
do sistema cardiovascular têm uma aplicação diretamente
ligada ao passado da raça humana, à própria história
do homem. Esta história poderia ser chamada de "atualidade
passada"; entretanto, sua tradução é sempre
presente, já que descreve em cada uma das suas linhas o real progresso
do espírito cientifico humano. A sua regra áurea tem sido
expressa no conceito de que o passado oferece o único substrato
para se poder explicar o presente.
Procurou-se difundir que só a história
contemporânea tinha real importância no contexto científico
do período presente, mas, na verdade, toda história tem
importância porque ela é eternamente contemporânea.
A história da ciência é um eterno
reservatório da pesquisa e do engenho humano. E o desenvolvimento
sempre dinâmico da nossa cultura e do nosso labor. Sendo a natureza
o teatro da vida humana, são os conhecimentos históricos
que engendram os cenários diante dos quais os homens de ciência
representam o seu papel. Se não tivermos tempo suficiente para
analisar e tentar compreender o passado, por certo não teremos
o discernimento necessário para atuar positivamente na construção
do futuro.
Todo estudioso da ciência é por definição
um crédulo. Mas o que é um homem de ciência se não
um crédulo na sua máxima expressão? E normal para
o pesquisador da ciência crer nos testemunhos, sobretudo quando
eles provêm do passado: é normal crer no testamento científico
de homens honestos e respeitáveis, de homens que inspiraram no
seu tempo e ainda continuam inspirando confiança. A grande lição
da história da ciência é sem dúvida a sua possibilidade
de declarar que tudo é possível ser alcançado; é
a curiosidade sem fronteiras, a acuidade de visão e do espírito
de procurar enxergar além do horizonte comum; é o espírito
de aventura que vem sempre enriquecer prodigiosamente o conhecimento dos
fatos e alimentar a curiosidade pelos descobrimentos destes próprios
fatos.
A História é um repositório de
lições. Needham explicita este fato desta maneira: "Os
erros dos nossos predecessores nos lembram que podemos também errar;
que a sua sabedoria nos livra de presumir que a sabedoria nasceu conosco,
e que pelo estudo dos processos do seu pensamento podemos esperar uma
melhor compreensão e, por ela, uma melhor organização
do nosso pensamento."(12)
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A origem da preocupação do homem pelas
afecções cardiovasculares e mesmo pela sua anatomia
remonta ao período conhecido como hipocrático.
No diálogo de Hermes Trismegisto com Asclépio,
datado de aproximadamente 3.000 a.c., já se faz supor
que o mesmo versava sobre a circulação. "...
todo móvel (sangue) não é movido em qualquer
coisa (corpo) e por qualquer coisa (vaso)? - seguramente.
E não é necessário que aquilo no que
o móvel se move lhe seja maior? E necessário.
O motor (coração) ao que parece é mais
forte que o móvel."(1)
Na China, em torno do ano de 2.600 a.C., Huang Ti
descreve a "coagulação dentro do pulso" fazendo
crer tratar-se da primeira citação de uma patologia cardiovascular(4).
Incontestavelmente, os primeiros conhecimentos inerentes
à circulação, ainda que de maneira fragmentada, provêm
das escolas médicas gregas. O grande acontecimento deste período
foi o surto da medicina, partindo de um princípio eminentemente
racional. Mesmo no século V, a medicina na Grécia ainda
se achava coesamente ligada à religião. Toda modalidade
de medidas de cunho terapêutico era confeccionada pelos sacerdotes
de Asclépio. Nos templos-hospitais havia uma combinação
de medicina espirita com rituais que davam asas à imaginação
e ao psique do paciente; o hipnotismo e, talvez, a anestesia eram utilizados
nestas oportunidades. A medicina racional fazia concorrência à
eclesiástica. Embora os dois grupos atribuíssem a sua própria
origem a Asclépio, os asclepíades profanos rejeitavam o
concurso religioso, não alardeavam curas miraculosas e, gradualmente,
colocaram a medicina em bases racionals.
A medicina oriunda da Grécia fez o médico
reconhecer, pela primeira vez na história da ciência,
a fundamental diferença entre uma verificação
empírica e uma demonstração lógica
e a considerar mais importante, com relação
à ciência-arte, a explicação racional
do que uma pura comprovação prática.
Se a ciência é mais do que uma acumulação
de fatos, no dizer de Tavares de Souza, não é
simplesmente conhecimento positivo, mas conhecimento positivo
sistematizado; não é simplesmente análise
sem orientação ou empirismo fortuito, mas uma
síntese; não é simplesmente um registro
passivo, mas uma atividade construtiva, então não
há dúvida de que a Grécia foi o seu berço(14).
- Professor Assistente
- Professor Titular
- Acadêmica de Medicina
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